sexta-feira, 18 de agosto de 2017

REPULSA

Como todos sabem, o Rio de Janeiro hoje é uma cidade falida, cheia de problemas gravíssimos, milhares de pessoas sem emprego ou sem receber salários. Nas ruas, uma guerra civil conta agora com o Exército na fiscalização, sem deter a violência. E, no entanto, empresários que parecem ser sócios em uma corretora de valores, acabam de inaugurar um teatro. Um teatro! Fica em uma área no terreno do Jockey Clube onde antes havia uma sala onde algumas peças foram apresentadas. Agora é uma casa para as Artes Cênicas, com todos os equipamentos necessários. Quando leio uma notícia dessas e olho à minha volta, sinto-me insultado. Sinto repulsa. Até uns 25 anos atrás, Belém contava com uma cena teatral cheia de atrações e casas cheias. Sim, ao longo do tempo, muita concorrência surgiu, mas principalmente, houve um desmonte do setor. Um abandono. Pior, uma deliberada ação para minar o movimento, pela negação dos espaços aos grupos locais, com uma lei cultural que inibe patrocinadores, todos com medo de terem seus livros abertos pela fiscalização. Pela falta completa de qualquer programa de investimento na criação de plateias, formação de mercado, apoio para que os grupos possam, aos poucos se manter, certos de ter um retorno de bilheteria aos seus trabalhos. Funcionários públicos, orgulhosos de sua ignorância, preferem promover um festival de ópera, gastando muito dinheiro, tendo, com récitas lotadas, um total de oito mil pessoas, talvez, enquanto milhões de outros paraenses, em todo o Estado, nada têm para desfrutar de Cultura. Ao longo desse tempo todo, sem nenhuma fonte de renda, atores e técnicos procuraram outros empregos, até mesmo no Estado e por isso, sem disposição para manifestações contrárias. Têm medo de perseguições. Outros, fizeram concurso e agora são Doutores e Mestres na Escola de Teatro da Ufpa, formando atores e técnicos a cada semestre, ao que parece, interessados mais em atuar como professores. O que isso resultará, não sei. Nesse tempo todo, a Cultura se profissionalizou. Hoje, é geradora de empregos, impostos, fora seu imenso valor de ser ponto de partida para a discussão em sociedade, dos assuntos que são de todos. Um povo que não consegue refletir sobre o mundo em que vive, está perdido. Por isso, estamos perdidos. O que sei é que poucos grupos suportaram toda essa pressão e continuam, depois de terem vivido de prêmios da Funarte e Ministério da Cultura e agora, por sua própria conta, fazendo Teatro. Apresentam-se em palcos alternativos, espaços em casas, praças, pela missão de espalhar Cultura e para resistir. Os que ainda tentam teatros menores, são constrangidos em pagar, além de taxas altíssimas, um “por fora” aos funcionários por, estranhamente, não serem contratados para trabalhar no horário em que os teatros funcionam. Tudo isso sem contar que é preciso levar garrafão de água, papel higiênico, fabricar ingressos, fatores mais que evidentes que não são bem vindos. Em cidades como São Paulo, shoppings são obrigados a ter equipamentos para arte, principalmente teatro. Aqui, em Belém, nenhum teatro consta dos planos desses empresários que ficam ricos na cidade, mas a odeiam. E leio e vejo fotos da inauguração de um novo teatro no Rio de Janeiro em meio à maior crise que já enfrentou. Esperaremos até o ano que vem para nos livrar-nos desse funcionário público que odeia Cultura paraense? O mal que já foi feito não tem tamanho. Quantas gerações foram perdidas nesses 25 anos? Serão precisos vários anos para a recuperação de tudo o que foi destruído.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O MAGUENHÉFICO

Quando conheci meu avô, ele já estava bem velhinho. Passava pouco tempo em sua escrivaninha, no segundo andar do Palácio do Rádio, sobre a qual havia sempre muitos recortes de jornal e papéis escritos à mão em uma caligrafia nervosa e difícil de entender. Baixinho, magro e cabeçudo, seus amigos diziam que eu era uma miniatura dele. Nas ruas, andava lentamente, atendendo conhecidos e pedindo-lhes para escrever seus nomes em uma caderneta amassada, dizendo que era para mencioná-los em sua crônica. Na verdade, não lembrava seus nomes.. Às vezes, no imenso pátio da casa em Mosqueiro, antes de sentar e ficar acenando para os amigos, danava a lembrar acontecimentos. Eu bebia o que contava. Uma época maravilhosa, romântica, como uma Paris em plena Amazônia, com homens de paletó de linho, chapéus de palha, cafés lotados.
Nascido em fevereiro de 1892, cedo perdeu o pai, largou os estudos e foi trabalhar para sustentar mãe e três irmãs. Aos sábados, um padrinho reunia amigos em sua casa para almoçar. Ele levava o jornal “O Pau”, que passava de mão em mão entre os convivas que pagavam para ler. O dinheiro servia para comprar livros e cadernos. Foi despachante representando várias empresas, entre elas, a Fábrica Palmeira. Jornalista, escreveu em A Província do Pará, A Tribuna, Folha do Norte e O Estado do Pará, tornando-se um dos grandes nomes do setor, recebendo o título “Príncipe dos Cronistas Esportivos do Norte”. Criou o apelido “Leão Azul”, para o Clube do Remo. Foi um dos fundadores da Aclep, Associação dos Cronistas Esportivos do Pará. Nada disso era suficiente. Edgar Proença também foi redator de revistas como A Semana e Pará Ilustrado, sendo um dos primeiros colunistas sociais, sob o pseudônimo Miracy, crônicas depois reunidas no livro “Gravetos”. Ou ainda “Crônica da Cidade Morena”, o apelido que deu a Belém.
Juntamente com Eriberto Pio dos Santos e Roberto Camelier, fundou em 1928 a querida Rádio Clube do Pará, na qual foi homem de todos os instrumentos, como primeiro locutor esportivo, apresentador de programas, rádio ator e redator. Nas praças esportivas, me contaram, deixava de narrar o jogo em andamento para saudar a chegada de alguma senhorita de grande beleza. Naquela época, eram acontecimentos sociais os jogos de futebol. Imagine se fosse hoje..
Tendo a chance, já adulto, voltou a estudar e formou-se em Direito em 1936, chegando às funções de Juiz Substituto da capital.
Além de “Gravetos”, publicou os livros “Colcha de Retalhos” e “Melodias do Coração”, o que lhe deu lugar na Academia Paraense de Letras. Também atuou no Teatro, sendo autor de peças como “Taça Vazia”, “Blusa de Chita”, “A Mulher que Passa” e “Vestido de Noiva”, apresentadas no Teatro da Paz, casa que dirigiu anos mais tarde.
Quando a Rádio Clube completou 80 anos, escrevi a peça “A Voz que Fala e Canta para a Planície”, encenada pelo Grupo Cuíra, com grande êxito. Foi uma ocasião única para mergulhar na história desse homem esplêndido, realizador, ousado, que a tudo vencia com trabalho, inteligência, talento e verve. Casado com Celina Proença, teve dois filhos, Edyr e Célia. E os netos, todos mexendo em Comunicação, de uma maneira ou outra, caminho, também de alguns bisnetos.

Quando morreu, eu já era adolescente e tinha perfeita idéia da trajetória e dos feitos daquele meu avozinho baixinho e cabeçudo, que andava de pijamas e chinelos arrastando, lendo seus jornais. Um gigante o meu avô. O maguenhéfico!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O TÓPLIS NÃO APARECEU

Naquela sexta o Tóplis não foi trabalhar na birosca ali perto da Presidente Vargas. Sabe lá, dormiu muito, arranjou algum esquema, se deu bem, ele merece, grande figura. No sábado, também não foi trabalhar. Ele não tinha, assim, um vínculo empregatício, carteira assinada ou sequer contrato. Foi aparecendo, chegando, ficando por ali, conversando, disposto a qualquer tarefa, primeiro de boas, só pela amizade e adiante, faturando alguma ponta dos bicos que pegava. Parece que o apelido vinha dele tentar dizer “Topless”. Começamos a ligar pro celular do Tóplis. Chamava e ninguém atendia. Estava ficando estranho. Arrumou uma coroa e foi passar o fim de semana em Algodoal? Ele tinha uns macetes. Quase setenta anos, mas não passava recibo. O que queria da vida, o Tóplis? A essa altura, ficar por ali batendo papo, arengando com uns e outros e no fim do dia, tomar seu chopinho em paz, até a leveza bater e ir dormir. E não é que encontrou a medida certa? Quais eram as outras ambições? Uma coroa, como já disse. Me contava que aos finais de semana ia ao shopping tomar suas cervas. Ficava por ali, sorvendo o líquido e admirando a paisagem, no caso, as mulheres que circulavam. Tem muita mulher solteira. Não entendo esses homens. Chegam de turma, bebem, riem, fofocam e saem sozinhas, como chegaram. Eu fico por ali abicorando. Umas solitárias. Parecem aguardar alguém, que não chega nunca. De vez em quando rola um papo, sabe como é. O Tóplis aqui se dá bem, de vez em quando. Esses caras de hoje nào sabem tratar uma mulher. Mulher quer atenção, carinho, alguém que ouça suas queixas, que concorde com suas opiniões. Ao final ainda pagam minha consumação e olha, bem, tu sabes como é, né? E soltava aquela gargalhada. O Tóplis era um solitário. Seu mundo estava ali, ao redor da birosca. De vez em quando contava aventuras de sua mocidade, aprontando todas, com amigos que ele ia lembrando, dizendo os nomes, como se eu os conhecesse. Eu já estive nas altas rodas, cara. Eles vinham comer na minha mão, mas depois vi que isso não valia nada. Quando eu passava na frente, vinha me mostrar as mulheres nuas nos jornais. E ainda tem gente que não gosta disso, ria. Quando Remo ou Paysandu perdiam, um brincava com o outro, mas sempre com muito humor. O Tóplis não atendeu ao telefone. No domingo, pegamos o endereço da pensão em que morava. Um quarto humilde, mas no centro da cidade. Não, ninguém sabia de nada. Batemos à porta. Nada. O zelador veio com a chave. Estava caído, ao lado da cama, um lado do corpo paralisado. Passara aquele tempo todo sem água ou alimento. Sem medicação. Um AVC em algum momento o deixou tonto. Tentou levantar mas caiu e ali ficou. Chamamos Samu e médicos. Fazíamos perguntas. Não conseguia falar. Os olhos mexiam. Quando me olhavam, desviavam em direção a algum lugar. Não foi logo que percebi. Muito simples, o quarto. Assim era o Tóplis. Umas duas calças, quatro camisas e um sapato. Ganhava uma merreca de aposentadoria. Complementava com os bicos. Os médicos o levaram. Não suportou. Morreu. Família espalhada. Um irmão pareceu responsável. Enterramos. Ficamos tristes a lembrar seus causos. O Carlão, dono da vendinha é que disse que o Tóplis tinha mexido com jogo clandestino da pesada, quando era mais novo. Foi quando me lembrei dos avisos que ele me dava ao desviar o olhar em uma direção, em seu quarto. Voltei à pensão. Havia, sobre uma mesinha, um bolo de papéis manuscritos, um título simples, “Meu Jogo da Vida”. Sentei e comecei a ler. Ali estava uma vida cheia de acontecimentos maravilhosos, começando em São Miguel do Guamá e tendo seu auge nos cassinos de Belém. Mas esse Tóplis! E essa história, hein?

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A VOZ DOS OLHOS

Sempre tive a impressão de que Elza Lima já tinha nascido com uma máquina fotográfica nas mãos. Já a conheci alerta, perspicaz. Um olhar que procura o tempo todo pelo quadro definitivo. Conversa com a gente e o olhar passeia em volta, quem sabe, de repente, talvez pense. 
Uma das grandes fotógrafas paraenses, veio no pioneirismo de Miguel Chikaoka e da Fotoativa. Em algum lugar vi fotos em preto e branco, que me conquistaram. Algumas estão aqui neste livro da “Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira”, lançado no ano passado e não suficientemente promovido aqui entre nós, o que não é novidade, com tantos torcendo, oficialmente contra, nossa Cultura. 
A foto “O Encantado”, feita em Capanema, 1992, é linda, bem como a “Rio Trombetas”, de 1997. São incríveis, como é ressaltado nos comentários e entrevista com ela, no livro, os numerosos planos a cada foto, a impressão que o quadro ainda era bem maior, excedendo os limites, convidando-nos a imaginar. Os cortes, nada convencionais e, principalmente, o olhar. Como ela diz, a voz dos olhos. 
A imaginação foi excitada ainda criança, pelos avós em incontáveis viagens pela Amazônia, esse mundo de possíveis e impossíveis, mundo em movimento, exercendo a cada instante fascínio sobre quem olha, sobre a voz dos olhos. 
Elza conta que muitas vezes espera. Olha, foca e parece faltar alguma coisa, que vem em seguida, absolutamente inesperada ou, diria, esperada, como se fosse a parte do quebra-cabeças necessária para compor o ideal. A convivência maravilhosa entre o homem, a natureza e os animais. O olhar de esperteza, ironia, do caboco, fotografado. Ou o homem forte, que encara uma iemanjá pintada na parede do bar. O garoto negro, todo ensaboado, tendo atrás de si vários outros planos, outras leituras. 
Nesse período, dos anos 1980 aos 1990, Elza fotografou em preto e branco, lembrando da ilha dos daltônicos, onde as pessoas viam tudo sem cor. A textura das asas de anjos nas crianças, nas procissões. A Santa, sentada em um banco corrido, circunspecta como uma imagem, tendo ao lado senhores com suas melhores roupas, respeitadores, uma corte, uma escolta à santidade. 
Sou um comum. Não tenho grande conhecimento técnico de fotografia. Acredito na força do olhar. Na poesia. Na voz dos olhos e a imaginação. Penso que a criação de Elza foi parecida com a minha, livre, inteiramente livre para imaginar e fazer o que quisesse. A leitura dos livros. Ouvir a música por trás da música. E olhar para o mundo com interesse genuíno. O que há para olhar de verdade? A vida. As pessoas. Como a natureza nos afeta. Pessoas simples, vivendo seu mundo perfeitamente integradas. 
Como diz Eder Chiodetto, a fotografia de Elza é irrequieta, indomável, passando por cima das convenções para obter a verdade. Fotografando uma Amazônia multicolorida, ela ousa procurar essa verdade nas fotos em p&b. “A Amazônia é muito imagética. Você vê o rio e uma árvore escondida. Daí passa um bicho, passa um homem. Não é tão linear quanto uma cidade construída; ela é feita de entremeios, de sombras... Acho que as pessoas que vivem na Amazônia têm essas nuances. É um treinamento do olho, natural de quem vive lá”. 
E essas pessoas nos olham, indagam. A foto de um menino. Ele parece quer saber o que há por trás daquela câmera que o foca. O caboclo que parece fazer troça. O casal que se beija na boca enquanto os outros contemplam. Belo livro. Que venham outros. Gostaria que o procurassem. Talvez na internet. Será que a Fox traz por encomenda? Vale a pena

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O MELHOR LUGAR DO MUNDO

Assisti ao filme “Divinas Divas”, de Leandra Leal, apresentando famosos travestis e suas vidas, após longos anos sob holofotes. O resultado é muito bom, mas confesso que o que me tocou realmente foi o Teatro Rival, ali na Cinelândia, Rio de Janeiro, deixado pelo avô de Leandra e que ao longo do tempo tem permanecido vivo, apesar de todas as crises e concorrência. Seus bastidores, camarins, o palco nu ou já com cenário, mas ainda vazio, momentos antes da abertura das portas para a entrada do público. Se vocês soubessem da vida intensa que existe ali, nos bastidores! Para mim, um teatro é um templo, uma igreja. Para pisar no palco e nos bastidores, há de haver respeito por tudo o que representam. Lembrei do Teatro Cuíra, levado a ferro e fogo, sem ajuda dos órgãos de Cultura do Estado e Município, geridos, há tempos, por ignorantes irritados pelo teatro continuar existindo apesar deles. A epopeia, a luta desigual levou nove anos. Nove belíssimos anos, com grandes espetáculos, mas principalmente, uma vida interna gloriosa. O primeiro dia, quando o elenco se reúne, nos bastidores, em torno de uma mesa, nas poltronas, com o diretor no palco, definindo as primeiras tarefas. As sessões de leitura de texto. As primeiras movimentações, estudos de iluminação, os cenários sendo levantados, figurinos testados, a trilha sonora sendo composta. Principalmente, os atores vestindo, aos poucos, aqueles personagens, trocando ideias. No teatro, tudo se discute. O resultado é absolutamente coletivo. Me deu saudade. Um aperto no coração. E vem o dia da estréia. Há um público lá fora. Ouvimos seu burburinho. Atores terminam a maquiagem. Outros se alongam. Fazem exercícios vocais. Discutem as últimas situações. Iluminadores e sonoplastas estão em suas cabines. Fazemos soar a primeira campa. Alguns olham por algum furinho, através das cortinas, tentando reconhecer alguém. Ouvimos alguém rindo de alguma piada. Vem a segunda campa. Todos reunidos, mãos dadas, até o famoso grito de “merda”. Estamos prontos. Corações acelerados. Agora, apresentaremos o resultado de dois, três meses de ensaios. Somos uma família. Durante aquele tempo todo trocamos opiniões, fazemos confissões, reavaliamos nossas crenças. Alguém avisa que aguardará mais alguns minutos porque ainda há público entrando. Um fica em frente à parede, murmurando prece. Outro silencia. Aquele vai ao banheiro para um último pipi. Nos abraçamos, nos beijamos. As ferragens estão expostas. O piso é gasto. Nas paredes dos bastidores, reflexos de outras montagens. A mesa de maquiagem é improvisada. Em instantes eles estarão no palco e serão outras pessoas. A mágica é feita ali, frente ao público. Tudo é possível. As pessoas nào têm idéia como tudo foi ensaiado, cuidadosamente, para que pareça natural. Fechamos o teatro. Uma tristeza imensa. Ninguém veio nos salvar. Talvez tenham festejado. Retirar as poltronas. Desmontar o palco. As ferragens. Som, iluminação. De repente, um vão livre, um vazio. Um vazio nas nossas almas. Eu via e ouvia um mix de tudo o que se passou. As palmas, os risos. Atores dizendo textos. O caminhão partiu com as poltronas, doadas a uma igreja na periferia. O silêncio. Lá fora a cidade em sua correria. Ali dentro, personagens me perguntavam por quê? O silêncio era a resposta. O uivo do vento entoando uma canção triste. Mas o Teatro vive. Agora estamos em uma casa. Estamos, inclusive ensaiando. Vivendo novamente o processo. O melhor lugar do mundo está nos bastidores, antes de soar a terceira campa. Garanto.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

BÁRBARA, BELA, TELA DE TV

A imagem transmitida para os mais diferentes receptores, a realidade transportada, a imagem inventada chegando até nós, se apresentando e se impondo, ficando gravada em nossas mentes, não diminuindo a capacidade de imaginação, ao contrário, aumentando, até colaborando, de alguma maneira armazenando, inclusive em quem não tem acesso à alfabetização, os fatos culturais. Quem será o dono das imagens? A quem interessa transmitir esta ou aquela imagem, manipulada ou não? Influir na opinião pública. Criando mocinhos e vilões. 
Londres é talvez a cidade mais vigiada do mundo. Todos são filmados nas ruas, recintos fechados, públicos - quem sabe também em privados? Razões de segurança. Em Belém, políticos usam imagens para mostrar que estão trabalhando bem, embora todos discordem.
É possível sobreviver em Brasília sem se envolver com irregularidades? Milhares de imagens, todos os dias. O que assistimos é a realidade? Ou é uma dança coreografada diariamente para nosso deleite? Olhos rútilos garantem honestidade. A falta de investimento em Educação e Cultura, a deterioração do tecido social, trocado pela sobrevivência diária. Quem lê jornais? Quem lê análises políticas? Quem lê tanta notícia? Nossas autoridades são mestras na dissimulação frente às câmeras. Não sabem, não viram, mas vão mandar apurar rigorosamente. Há um descompasso entre a imprensa, como tambor da sociedade, e a verdade anunciada pelos políticos, que parecem, hoje, atuar apenas para evitar que sejam descobertos em ações ilícitas. Qual será a verdade?
Há como que realidades superpostas. Diariamente, no “Jornal Nacional”, há cobertura da ação policial no Rio de Janeiro. Ou em Belém. Soldados camuflados, com armas pesadas e postura de guerra, escondem-se nos becos, apontando, procurando inimigos. Como nos filmes. Na mesma cena, despreocupados, moradores, homens, mulheres e crianças passam pra lá e pra cá, na sua azáfama diária. Lojas, casas, ambulantes, mais soldados. Como realidades superpostas. Como se filmados separadamente e depois sincronizados. A guerra de uns e outros, diferente da outra guerra, a da sobrevivência, à margem, criando outra sociedade, sem controle, a sociedade do descontrole, onde o lema é sobreviver. E os corpos empilhados, crimes sem solução. 
E nessa sociedade tudo é pirata, como uma sociedade cover, sociedade falsa, com outro padrão. É pirata porque não tem dinheiro para ser a verdadeira. Porque, ao contrário de morrer, desaparecer, luta para continuar viva e se reinventar a partir do instinto de sobrevivência. Não há Cultura ou Educação como conhecemos. Uma nova escala de valores é criada. A vida e a morte na TV. Está na imagem e a mídia, tem fome. A sociedade imagética. A sociedade espetáculo tem fome. A quem vamos devorar nesta semana? 
A nós não basta desnudar as pessoas em seus 15 minutos de fama, naquilo que representa sua vida, sua ação profissional ou particular. Queremos tirar-lhe a roupa, escanear poro por poro de seu corpo. Queremos ver sua vagina, seu ânus, saber se é depilada, se as fotos precisaram de Photoshop, se os seios têm silicone. Devoramos seu corpo e, após o gozo, queremos mais. Nos faces e instas, maridos expõem suas mulheres em ação que visa, com o exibicionismo, a excitação. O espetáculo. Pageviews. Ou aquela mulher, que como Jabor diz, é apenas uma bunda. Como é seu nome? Bunda. Em todas as telas. Das menores às maiores. Editadas ou não. Soa um ruído. Todos os olhares voltam-se para as telas. Está tudo na bárbara, bela, tela de tv.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

AOS MEUS PROFESSORES

Acabo de assistir a uma reportagem na televisão sobre professores inesquecíveis de cada um de nós. Não conheço profissão mais nobre. A importância de alguém que nos ensina as primeiras letras, a escrever e ler. Tive ao longo da vida professores de fundamental presença e aproveito o mote para lembrar deles. Aos oito anos, meus pais conseguiram que Beatriz Kup, filha do cônsul da Inglaterra, quinze ou dezesseis anos, me ensinasse a falar inglês. Além de linda e inteligente, ela me passou o fascínio da Língua, embora a tenha feito passar vergonha. Em uma recepção, apresentou-me ao pai que, brincando, perguntou “How do you do”, ao que respondi, encabulado, “ainda não dei isso”. Cinquenta anos depois a reencontrei, com a mesma beleza e vivacidade. Parecia um encontro marcado. Semanas depois, repentinamente, faleceu. Estudei o Primário no Colégio Suiço Brasileiro. Lembro pouco. Mas no Colégio Nazaré fiquei até seguir para a Universidade. Logo no primeiro dia de aula, aprendi todos os palavrões que sei até hoje. Mas também aprendi muito. Não esqueço de alguns Irmãos, sobretudo Irmão Machado, nordestino, que criou um Clube de Leitura. Fiquei encarregado de ser um dos redatores do jornal “O Caminho”, impresso em mimeógrafo. Após as aulas matinais, voltava à tarde para reuniões onde aprendia Educação Sexual, Leitura e discutíamos Religião. Confesso que minha assiduidade era devida ao futebol que jogávamos ao final das discussões, mas sei, que toda a reflexão feita sobre os assuntos, me fizeram ser quem sou, hoje. Havia o querido Irmão Afonso, alemão que diziam ser vítima de guerra, o que nos dava curiosidade e um certo medo. É uma pessoa doce, adorável, ainda hoje com uma legião de amigos, ex-alunos. E os professores? Havia o Camarão, de Língua Portuguesa, excelente, boêmio, às vezes dando aula com muita ressaca. O Padre Tocantins, figura ao mesmo tempo engraçada e complicada. O professor Gabriel Leal, adiante, parceiro de jogos de futebol, que tocava em uma eletrola “My Bonnie” e caminhava pela sala, cantando. O professor Manoel Leite, apaixonado por sua matemática. Professor Nogueira, de Química Mineral de quem me tornei muito amigo, mesmo que faltasse, com outros, às suas aulas, para jogar futebol. O Irmão Porfírio, preocupado que não estudássemos demais e chegássemos ao Vestibular cansados. Lembro então de uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu amigo Abílio Cruz, que estudava dando aulas para nosso grupo de estudo. Um professor, adiante, no Curso de Engenharia da Ufpa. Foi-se muito cedo e até hoje deixou uma lacuna enorme nos nossos corações. Mas quero prestar homenagem, principalmente ao professor Edson Berbary. Sua cadeira era Português. Embora eu já devorasse todos os livros de aventuras de capa e espada da biblioteca de meu avô, ele dividiu nossa turma em grupos, oferecendo livros de autores brasileiros diversos para que lêssemos e fizéssemos um trabalho a respeito. A mim coube “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Meu avô emprestou-me. Havia uma dedicatória do escritor para ele. Li em seguida os outros dois livros e isso despertou em mim, definitivamente, a leitura, a reflexão e nunca mais parei. Berbary também estava sempre conosco em acantonamentos, projetos, diversão. Com sua inteligência, sua postura, sua integridade, é um Professor com “P” maiúsculo, que nunca vou esquecer. Muito obrigado. Há alguns bons anos atrás, também dei aulas no Curso de Jornalismo na Ufpa. Confirmei a importância da missão. Não há nenhuma profissão mais importante. O meu agradecimento a todos eles que me fizeram ser quem eu sou, hoje.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

EU VOS DEIXO A PAZ. EU VOS DOU A MINHA PAZ.

Eu queria escrever sobre intolerância, após assistir aos vídeos em que o ator Fábio Assumpção, fora de si, ao invés de ser contido e até mesmo protegido contra si próprio, é xingado e estimulado por um grupo de pessoas simples, de Arcoverde, Pernambuco. Gritavam impropérios, gozavam a cena, “olha o ator da Globo drogado”, diziam. Parecia uma delícia, o homem bonito, galã, ator de tv e cinema, ali, dando vexame, descontrolado. Havia uma vibração de quem curte ver o que está por cima, agora jogado na lama. O tal do homem cordial brasileiro, já não há. Penso nas mídias sociais onde insensatos ainda repetem o tal “nós e eles”, “coxinhas contra sei lá o que”, insuflando a luta entre classes. Já não há. Agora, somos todos “nós”. Mas continuam de maneira insana. O resultado de longos anos de abandono de Educação e Cultura como base de uma cidadania, deram nisso. Há ódio incontido. Há falta de amor. Amor puro entre as pessoas. Compaixão, compreensão. Há assassinatos e violência diários e autoridades incompetentes para lidar. Educação e Cultura não estão nos planos desses que tomaram conta do país. E o país não é deles. É nosso. Joguemos fora esses slogans irritantes, bandeiras de sindicatos que temem perder regalias financeiras. Somos um só. Tomemos o que é nosso, de volta. E acima de tudo, vamos recuperar o amor. Se me permitem, lembro o amor que perdi, meu amigo, meu melhor amigo, o melhor de todos. Chegou aos 45 dias de vida. Belo, grande, o maior da turma. Conquistou a todos. Tornou-se um imperador na Praça da República onde circulava atendendo aos chamados de quem queria saudá-lo e fazer carinho. Aos domingos, ficava cercado de crianças que faziam fila para bater foto. Abria um sorriso e estava à vontade. Tinha uma aura brilhante. Onde chegava, era notado, tanto pelo tamanho, como pela beleza. Seu nome era Antonio. O dono da casa. Responsável, quando andava em grupo, cuidava para que nenhum de nós se afastasse muito, como um pastor e seu rebanho. Suportou a chegada de mais um companheiro, de outra raça, porte menor, danadíssimo a importuná-lo mordendo suas orelhas em provocação constante às brincadeiras. Inteligente, entendia as palavras chave. Esperava-me no terraço do prédio, atento ao movimento da rua e uma vez identificando-me ao atravessar, ao subir, já o encontrava pronto, guia entre os dentes, para seu passeio diário. Apaixonado por água, ao chegarmos na Praia do Farol, Moscow, aberta a porta já corria e mergulhava na água com grande prazer, onde ficava nadando. Me fazia companhia. Estava sempre ao lado, pronto. Sua partida foi rápida, silenciosa. Antes, passeou longamente por sua adorada Praça da República, como uma despedida. Deixou um imenso vazio. Um deserto onde a beleza e principalmente o amor, reinavam. Hoje, quando lembro dele, o que é uma constante, lembro principalmente do seu olhar. De vez em quando o pegava me encarando. Dele, emanava uma paz, uma compaixão, um amor puro e leal que se espalhava não apenas ao nosso redor, mas por todo o mundo, por todos os lugares onde circulava. É disso que sinto falta nesta realidade terrível em que nos encontramos. Dessa intolerância, incompreensão, impossibilidade de buscar, juntos, uma solução. Lembrei de um trecho da missa que diz: eu vos deixo a paz. Eu vos dou a minha paz. Era tudo o que ele fazia. Sua missão. Espalhar o amor e a paz. Deve estar agora correndo nos campos, o vento batendo no pelo dourado e lindo, levando sua mensagem, sua missão a outros mundos. Saudades, Antonio, meu amigo. Meu melhor amigo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO

Há uma onda de nostalgia no ar. Mesmo em um momento em que os programas populares apresentam somente os tristes e deploráveis artistas do momento, em que Elba Ramalho fala em nome da cultura nordestina, protestando contra os sertanojos, contratados a peso de ouro e tirando o lugar de artistas do forró nas festas juninas, o passado está aí. Na Rede Globo é uma festa. Começa na abertura da novela das sete, com uma versão de “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. Prossegue na série “Os Dias Eram Assim”, com toda a trilha formada por sucessos dos anos 60. Duas ou três mereceram fraquíssimas versões de cantores atuais. Nas emissoras em canal fechado, acabou de passar o documentário “Dunas do Barato”, Rio de Janeiro, anos 70, quando a produção cultural, mesmo enfrentando muita censura, foi profícua. Houve, na praia de Ipanema, a construção de um emissário de esgoto em mar distante. Com isso, um pontilhão apareceu, como que rompendo o mar e com isso, proporcionando ondas boas para o surf. Na areia, um sem número de artistas e jovens em geral pegava sol, debatia os assuntos e marcava onde todos estariam à noite. Foram focalizados artistas das Artes Plásticas, os poetas marginais, o surgimento das boutiques modernas, a partir das novidades internacionais e dos trajes desses jovens da praia, o teatro principalmente de Rubens Correia e Ivan Albuquerque, no lendário Teatro Ipanema e os shows e discos de Novos Baianos, Gal Costa, Raul Seixas e outros. Eu vivi tudo isso. “O Imperador Assírio”, “A China é Azul”, “Hoje é dia de rock”, “Hair”. Toda essa turma na praia, à noite, se reencontrava. Ou então para assistir “Fa-tal”, o melhor momento de toda a carreira de Gal Costa, linda, cantando um repertório sensacional. José Wilker era o ator da moda. Eu o vi uma vez, lanchando no Bob’s, bem jovem, cabeludo, famoso. E assisti “Artaud”, com Rubens Correa, no porão do Teatro Ipanema, peça que chegou a ser apresentada em Belém e que considero, com “Macunaíma”(Caca Carvalho), os dois espetáculos mais importantes da minha vida. Pouco mais adiante apareceu o Circo Voador e os anos 80 e o rock nacional, o último grito de criatividade na música brasileira. Agora, temos apenas ruído ruim. Também no canal fechado, um documentário em vários capítulos sobre a carreira de Gal Costa. E vêm Caetano, Gil, Duprat, Macalé, Waly Sailormoon e a cantora Maria da Graça. Tudo isso após ler a biografia de Caetano Veloso, que está nas livrarias. Uma onda de nostalgia que faz os mais velhos reencontrar a juventude, lagrimar em alguns momentos e perceber que tudo era muito rico, audacioso, feliz. Onde foi parar tudo isso? Na sociedade de consumo? Afundou com o fracasso da Educação e da Cultura? Esqueci de dizer que também, agora, pedimos eleições diretas. O passado retorna. Embora tivéssemos muita atividade criativa nos anos 70, aqui em Belém, no teatro, por exemplo, creio que a década seguinte trouxe a maior parte das grandes figuras que até hoje ainda estão por aqui. Esses jovens liam, discutiam, montavam espetáculos na marra e depois iam debater tudo em pontos como Bar do Parque e ¾. A impressão que tenho é que a juventude atual não sente vontade de lutar por seus direitos, por seu espaço, para dizer a que veio. Reúne-se em guetos separados. Vão aos shows, batem palmas e somente se unem para xingar os coxinhas. É pouco.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO

Caetano Veloso é o ídolo da minha geração. Se vindo de fora já era época de Beatles, Stones e chegando Hendrix, Doors e Joplin, aqui no Brasil pairava um som entre o romântico bolero e a Bossa Nova. Eu me lembro de assisti-lo na televisão em p&b lançando “Alegria, Alegria”, com roqueiros argentinos acompanhando. Aquela linguagem de imagens superpostas me encantou. Caetano na TV no programa “Esta Noite Se Improvisa”. O casamento com Dedé, em Salvador, com a multidão e eles andando rumo à Igreja. Deu no Jornal Nacional. Tudo em p&b. 
Eu me lembro de Caetano no Ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Em meio ao show, sentava sobre um tapete e comia uma flor. Para a época, muito doido. Caetano e Gil, presos. O disco inglês com uma foto deprê e um repertório ao qual vim dar valor tempos depois. A volta com o “Transa”. Caetano e Chico, ao vivo. Eu estava na praia, Rio de Janeiro, e a Rádio Mundial não parava de tocar “Diz que deu, diz que dá”. A revista “Bondinho”. O jornal “Rolling Stone”. Outros jornais como “A Flor do Mal”. Eu me lembro. 
Caetano de batom vermelho, bustiê e tamancos holandeses. Eu tive um. Bicha! Bicha! Essa ansiedade em desafiar, explicar, confundir, me encantava. Ele me ensinou a cantar. Nos trouxe de volta bolerões com novos arranjos. Relançou Luiz Gonzaga. Em 1968, veio a Belém, com Gil, participando de um show da Rhodia, empresa que na época fabricava os tecidos que as mulheres compravam. “Momento 68”, em pleno Theatro da Paz. Eu estava lá. 
Chegava a gostar menos de Chico Buarque. Ele parecia muito careta. Hoje eu sei, claro. Sei também que a carreira e discografia de Caetano é muito desequilibrada. Em muitas músicas, parece ter acabado a letra apressadamente. Os arranjos, também. Se nos primeiros tinha ótimos maestros arranjando, quando voltou do exílio, no auge, gravou “Araçá Azul”, o álbum experimental, recorde de devolução das lojas. Há joias ali, mas há também um pouco de soberba em inventar, na base do foda-se. Adiante, em “Joia” e “Qualquer Coisa”, também. 
Para mim, o melhor momento de sua vida foi ao lado da Banda Nova, com Vinícius Cantuária, Tavinho Fialho e outros. Começa em “Muito Por Dentro da Estrela Azulada”, que abria com “Terra”. Incrível, sabiam que foi muito criticado? Então vêm “Cinema Transcedental”, “Outras Palavras” e “Cores, Nomes”. 
Esqueci “Os Doces Bárbaros”, grande momento ao lado de Gil, Gal e Bethânia. Caetano circulava pelo Brasil com a banda, namorava, via, lia, ouvia e o resultado está nos discos. Ele diz que muitas músicas poderiam ficar melhores. Pode ser. Mas creio que foi quando se aproximou de Arto Lindsay e casou com Paula Lavigne, alguma coisa se partiu. Os discos continuaram bons, mas a chama começava a murchar. Veio o fenomenal “Fina Estampa”, delicioso como cantor. O mundo agora o amava. Mas, curiosamente, raras músicas, para mim, tinham o mesmo nível. 
Recentemente entrou na fase rock, que considero terrível, muito ruim. Agora circula escolhendo pérolas do imenso repertório para cantar. Ele pode. Acabei de ler “Caetano, Uma Biografia”, de Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco, um livro pronto há alguns anos e não autorizado por Caetano não gostar do português da dupla, realmente cheio de clichês. Agora que caiu a lei, está nas livrarias. Para quem quer saber detalhes, sobretudo do início de carreira, sensacional. “Trilhos Urbanos” é Santo Amaro, em detalhes. “Trem das Cores” foi feito quando viajava no Trem Prata, do Rio para SP, namorando com Sonia Braga. “Você é Linda”, foi feita para uma adolescente que namorou com ele durante uma turnê. Há muitas outros detalhes. Agora Caetano anuncia outro disco. Compro todos. Quero gostar. Tomara.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MEU CORAÇÃO É BANDEIRA AO VENTO NA PRAIA DO FAROL

Minha amiga Silvana acaba de publicar fotos do Hotel Farol, em Mosqueiro, onde passa alguns dias com sua mãe. Comentei, no Facebook, que meu coração está ali, naquele cenário, não enterrado, mas empinado, ao vento, como uma bandeira feliz, acenando para o dia. 
A praia do Farol é o local dos meus sonhos e devaneios. A casa de meus avós. Uma das lembranças mais antigas foi uma madrugada em sussurros de minha mãe e suas auxiliaries. Íamos pegar o ônibus das seis, até a Vila, e de lá, no Presidente Vargas, para Belém. Elas não queriam nos acordar. Outra lembrança é acordar, um domingo, ouvindo o vento nas palmeiras e a algazarra da criançada, na praia. Como eu era feliz. Como um dia em que meus pais e um ou dois dos meus irmãos tinha ido a Belém e eu fiquei. Era depois do almoço, dia de semana, julho, e naquela calmaria, fui até a praça em frente da casa, subi em uma árvore e lá fiquei pensando na vida. A vida! O que seria, o que haveria à frente? 
O Farol da minha meninice era muita praia, bicicleta e futebol. Mas foi lá, também, que conheci meu primeiro amor, que até hoje me afeta. O sentimento de paixão, alterando, trazendo desvarios mentais ao meu cotidiano até então. Aos finais de semana, noitinha de sexta, chegavam os pais, vindos de Belém, pelo navio. Traziam revistas para as crianças. Nosso vizinho, Sr. Harley, passeava em um carrinho, levando uma criança de cada vez para uma volta. Mais tarde, vinha fazer mágicas. Junte isso com as narrativas de minha mãe, teatralizando uma Amazônia misteriosa, ocupando, municiando nossas mentes, abrindo portas para o livre pensamento. Meus avós, sentados em cadeiras no imenso patio, saudando os amigos que passam em direção à praia. 
Quem chegava, de violão para tocar com meu pai. E já chegou ali a kombi do Seu Rubem Ohana, carregada de meninos e meninas que ao toque de uma eletrola, botavam-se a dançar e namorar. Eu olhava comprido, ainda tão menino, mas em transformação. Agora a moda era jogar vôlei nos quintais. Com a ajuda do querido Zé Zumero, levantamos uma rede e aprendemos a jogar. Mas já a vontade do futebol me levava à praia, nas tardes, para enfrentar adversários maiores e mais fortes. Meus moinhos de vento? Não interessava. Aprendia. Lá vem um rapaz, da Ilha, driblando seus oponentes, rumo ao gol. Pensei em impedí-lo. Claro, eu conseguiria. Aprumei o corpo para prensar a bola. Houve um choque. 
Caído ao chão, vi-o seguir, célere, adiante, enquanto eu estava destroçado. Saí capengando. Um dedo estava quebrado. O rapaz, nem sentira. Mesmo assim, à noite, estávamos no Netuno Iate Clube, luz negra, Esmeril Band tocando rock and roll. Em um interval, “I started a joke”, dos Bee Gees e aí o mundo rodava, se transformava, um rodopio, um mundo inteiro se transformando, amores impossíveis, para mim, as meninas cobiçadas dando atenção aos mais velhos e já aprumados e o barulho das ondas do mar, batendo na arrebentação. A gente olhava para o céu, procurava a lua e suspirava. Quando chegará a minha vez? De vez em quando vou ao Mosqueiro. Escrevi um livro quebrando esse vidro de paraíso, chamado “Moscow”. Mas isso é arte. Meu Mosqueiro está intacto. Vou no meio de semana, um dia qualquer. Vou à praia com meu cachorro, volto e me ponho sentado na pracinha. Vou até a casa, hoje do amigo Mariano Klautau. Olho o patio e fico em devaneio. Todo aquele mundo passa diante de mim. Tão felizes, tão lindos! Eu os vejo, juro e penso como era feliz! Não me arrependo de nada, nem de ter amadurecido mais tarde, sendo criança por mais tempo. Meu coração está linda, bandeira despregada, rindo infantilmente, como um sinalizador de que tudo na vida vale a pena. Boas férias neste julho que vem aí.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OS CANÁRIOS PRECISAM CANTAR

Meu pai tinha passarinhos. Curiós em gaiolas. Aos sábados, de madrugada, partia, com outros “passarinheiros”, para onde ainda havia mata fechada. Seus curiós eram especiais. “Preseiros”. Quando chegavam ao ponto onde sabiam haver outros curiós, cada vez mais raros, paravam e colocavam suas gaiolas em pontos diferentes. Havia sempre uma “curiola” na área e para ela, o “preseiro” cantava, paquerando, ao que vinha, feroz, o macho, defender sua área, sua namorada. Ao atacar a gaiola, o “preseiro” com habilidade ímpar, prendia, com patas e bicos, o atacante, o qual soltava apenas quando meu pai se aproximava. Mas, ao invés de apreender mais um curio, meu pai o soltava, para que houvesse mais diversão no sábado seguinte. No mais, aproveitavam para conversar, tomar banho de igarapé e respirar ar puro. A idade chegou, as idas rarearam até parar. Os curiós morreram de velhice. Foi bom. Meu pai era de outra geração. Outra criação. Moleque, empinou tantos papagaios que sofreu grave inflamação ocular. Coisa de moleque de rua. Os passarinhos, também. Chegou a levar alguns deles a festivais onde o vencedor era o que cantava mais. O comércio dessas aves ainda é pesado. De vez em quando o Ibama apreende animais cativos e seus proprietários. Foi bom que acabou. Nós, os filhos, de outra geração, não gostávamos. Todos os dias, logo cedo, lá estava ele a limpar gaiolas e colocar água e comida. Sempre me perguntei o que fazia um pássaro cativo transformar-se em caçador e ao invés de repelir outras possíveis vítimas, seus iguais, prende-las e oferece-las ao carcereiro. Nunca me conformei. Aves foram criadas para voar, cantar, cada uma com sua tarefa na Natureza. A leitura também dá asas. Muito da minha imaginação devo às estórias de minha mãe, mas outro tanto, aos livros aos quais me abracei desde cedo, pilhando a biblioteca de meu avô de seus Dumas e tantas aventuras. Na mente, a selva amazônica se transformava nos campos da floresta de Sherwood, nas ruas da Paris dos mosqueteiros, em batalhas navais, enfim. Foi o que mediou meu comportamento “endiabrado”, na época. Quando havia silêncio na casa, eu estava lendo. Hoje, ainda estou abraçado aos livros, nas aventuras, de “Game of Thrones” ou “Outlander”, também em series de tv. Estive, a convite da amiga Olga, na Defensoria Pública do Estado, acompanhando o lançamento do jornal “Os Canários”, primeiro resultado do projeto de Remição de Pena “A Leitura que Liberta”, onde presos, a partir da leitura de livros, diminuem suas penas. Lá, conheci a defensora Izabel, bem como Idajane, que acompanham, empolgadas, o progresso. Ao invés de ações desastrosas na área da Cultura, o governo estadual acerta nesse projeto. Um coral de detentas cantou, outros leram, há poesias e artigos. Emocionante. Quando penso em uma pessoa apenada, na solidão, no silêncio, na contagem das horas, mas com a imaginação, viajando em liberdade, feliz, por outros mundos e ao mesmo tempo ganhando informação, vocabulário e diminuindo seu castigo, sinto-me impelido a participar com o maior empenho. Nos próximos dias farei doação de livros de minha autoria e outros que já li. Há uma carência de literatura adulta. Também moverei o grupo ao qual pertenço, que realiza a Feira Literária do Pará a se fazer presente em doações e em conversas com essas pessoas, ávidas por liberdade, imaginação e cultura. Parabéns!

DELÍCIAS DO TIO

Pois é, eu que vivo me queixando que não há nada de novo para ouvir, estou, como se diz, empapuçado com tantos discos bons que acabaram de ser lançados. Vou discorrer sobre alguns deles, porque penso que nem todo mundo tem a obrigação de estar ligado em lançamentos, mas gosta de ser informado para consumir boa música. Saiu disco novo de Joyce Moreno, a maravilhosa cantora, compositora e violonista com uma carreira mais dedicada a plateias internacionais, que consomem vorazmente seus trabalhos. “Palavra e Som” é o nome. Também comprei mas ainda vou ouvir, Simone Mazzeo e Cotonete, que tem recebido ótimas críticas. É o primeiro disco que ouvirei da cantora que tem considerável fã clube até em Belém. Juntou-se ao grupo francês Cotonete e o repertório é ótimo. Tomara que goste. A cantora de jazz Diana Kral também lançou trabalho, “Turn up the quiet”, eleganterrima, ela que começou a carreira apenas como pianista, mas foi apertada pelo mercado a assumir também o canto. Casada com Elvis Costello, canta standards com um grupo dedicado e excelente. Muito bom para ouvir à noite, passeando pela cidade (tomara que não seja assaltado em sinal), com a pessoa amada. Quer algo ainda mais elegante? Foi relançado o álbum em que Frank Sinatra canta Tom Jobim. O célebre que contém “Garota de Ipanema”. Com a remasterização, detalhes que antes não eram percebidos, saltam aos ouvidos. O violão de Tom na abertura da canção, metais e a voz do “Old blue eyes”, em forma. Há bombons como três ou quatro versões de “Garota”, com Frank pedindo mais uma tentativa, apesar de estar ótimo em todas. Se ouço Diana, ouço também a brasileira Eliane Elias, radicada nos EUA, onde chegou como pianista e também passou a cantar, ela que é casada com o grande instrumentista Randy Brecker. Com um contrabaixo maravilhoso e um balanço irresistível, abre com “O Pato”, standard da bossa nova com levada fantástica. Sem querer ser genial, Eliane está perfeita, divertida e brilhante em “Dance of Time”. Dá vontade de correr para a pista de danças. Outra brasileira, filha de cubanos, Marina de la Riva, dedica seu álbum à obra de Dorival Caymmi, procurando sua proximidade com a umbanda e o mar e sempre trabalhando a percussão. Estou ouvindo, mas as primeiras faixas são ótimas. João Donato participa, bem como Danilo Caymmi. Há sempre uma canção cubana permeando o repertório. E para vocês perceberem como meu gosto é elástico, adorei o disco novo da banda Bush, comandada por Gavin Rossdale. O título é “Black and White raimbows”. Mais do mesmo. E o que esperavam? Gavin é um ótimo cantor e o som, bem desenhado, pesado e melódico é muito bom de ouvir. Para quem ainda não sacou, a banda é a daquele hit “Glycerine”. Um relançamento importante é “Maravilhas Contemporâneas”, de Luiz Melodia, a quem desejo melhoras, já que está doente. Remasterizado, o disco realça os metais, além da voz de Melô que está fantástico. É o disco que tem “Juventude Transviada”, entre outras. Há também disco novo de Ricardo Silveira, o guitarrista, mas ainda nào ouvi. Um álbum póstumo do “deus” do baixo, Jaco Pastorius, show ao vivo, em Toquio, de Steve Hackett, tocando músicas do Genesis e do King Crimson, já que conta com Ian McDonald, integrante da formação inicial da melhor banda do mundo. Tocam “I talk to the Wind”, entre outras. Também foi relançado, com faixas extras, “Works II”, do Emerson, Lake & Palmer e a principal delícia, “Sgt Peppers’Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, para ouvir com lenços e enxugar as lágrimas. Som maravilhoso e extras geniais. Penso que ainda escreverei somente sobre ele. Como vêem, estou ótimo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A MÚSICA EM NOSSA VIDA

Escuto música no carro. Trabalho em rádio há muitos anos e durante o dia, ouço a emissora o tempo todo. Em casa, há outras atrações nos livros e televisão, além da família, claro. Mais novo, peguei o tempo dos cartridges que tocavam músicas nos veículos. Mais tarde, vieram os cassetes. Bem, estou começando, somente agora, a ouvir, no carro, a partir de um pen drive. É diferente de tudo. Estou tentando me adaptar, sou de outro tempo. Cresci em um lar musical, por conta de meus pais. Adiante, meu irmão mais velho ganhou da avó uma eletrola, portátil, funcionando por corda, que tocava 78 rpm. Havia discos diversos. Não esqueço de Dorival Caymmi, em forma, cantando “Dora”, em um arranjo que nunca mais ouvi, onde a abertura e encerramento, maravilhosa, era com metais de frevo. Havia também uma ária de “O Barbeiro de Sevilha”. Pedro Vargas cantando “Farolito”. Adiante, o Edgar ganhou um prato, pequeno, que funcionava acoplado a um rádio para aproveitar o amplificador. Meu primo Tom, que morava nos Estados Unidos, veio passar férias. Ao ir embora, deixou-nos uns 50 compactos da parada americana. Para os que nasceram há pouco, eram vinis pequenos, onde cabia apenas uma música de três minutos. Verdadeiras jóias. Nat King Cole, Pat Boone, Elvis Presley, todos em grande forma. Os disquinhos tinham um buraco no meio. Havia uma briga entre gravadoras pelo padrão em 33 rpm. Para tocar, era necessário um adaptador. Uma verdadeira mina de ouro para garotos que se interessavam por música. E então, de repente, os Beatles invadiram nossa vida. Com eles, Rolling Stones, Hollies, Animals, you name it. Anos 60, com a Jovem Guarda, Roberto, Erasmo, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e companhia. A bossa nova era algo chic, sério, para um determinado número de pessoas. Os Festivais da Record e toda uma geração maravilhosa que apronta até hoje. Caetano, Gil, Gal, Bethania, Milton, Chico, vocês sabem. Ganhei uma eletrola portátil. Gigantesca. Funcionava com oito pilhas grandes. Um dia meu irmão chegou com um disco de um tal Jimi Hendrix e botou para tocar em outra eletrola, agora portátil, mas com duas caixas pequenas de som. Meu mundo mudou. A vida era diferente. Os discos, para nós, duravam vários meses. Ouvíamos e conhecíamos todas as músicas, a sequencia. Depois, além das capas maravilhosas, passamos a saber quem tocava o quê e onde. Agora já tinha uma eletrola Telespark, de móvel. No meu carro, um roadstar. Enfim, veio o cd. Demorei a aceitar. A capa, pequena, nomes quase ilegíveis. Houve o MD, lembram? Vida curta. No carro, cd player. Tudo mudou novamente. Mp4 ou outros padrões. Compro no iTunes. Na maioria das vezes, não vem ficha técnica. Tenho costume ainda hoje de ouvir todo o disco, mas as pessoas, não têm mais essa preocupação. Acabaram os álbuns conceito. É só a música. Acho que nem querem saber quem canta. Tem Spotify. Ando ouvindo discos antigos, todos em cds relançados remasterizados, uma delícia para perceber os instrumentos. Anteriormente era tudo em mono. Essa onda da volta do vinil é somente espuma, de uma galera que gosta de ser diferente. Agora, está tudo na nuvem. Penso que é a próxima onda, se já não for agora. Talvez seja saudosista. Temi, por muito tempo, sentir-me assim. Não tenho medo do novo. Do hardware. Mas tenho saudade do software, da música, que antes, era melhor. O fato é que agora ouço músicas no meu carro, em pen drive.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

EDYR PROENÇA, FARIA 97 ANOS

Hoje seria o aniversário de Edyr Proença, meu pai. Ele faria 97 anos. Já passaram 19 anos de sua morte, que ocorreu neste mesmo mês, no dia 5. Decidi escrever pensando nele, que me acompanha de onde está, me iluminando e mostrando o melhor caminho, como sempre. 
Sabiam que foi remador? Contou-me que o ensinaram a nadar simplesmente jogando-o na maré. Foi também grande jogador de vôlei. Tudo pelo Remo. Também campeão de basquete. Sem vaga na equipe azulina, recebeu convite do clube Júlio César. O pai, Edgar, não aprovou. Sem avisar, jogou e ganhou campeonato. No ano seguinte, foi chamado para o time do Leão Azul. 
Mais velho, havia uma pelada de veteranos no Ginásio Serra Freire. Ai de quem se atrevesse a entrar batendo bola em qualquer garrafão. Dava para ouvir as pancadas. Uma vez, a bola bate no aro. Meu pai salta para pegar o rebote. Mais alto, mais forte, um querido tio pega a bola, vira-se e como uma arma, desfere-lhe uma pancada na cabeça. Zonzo, ele olha atônito. Desculpe, Edyr, pensei que fosse o fulano (outro tio queridíssimo)! Ele também era bom jogador de futebol. Meia armador, mas nessa, apenas peladas com amigos, em vários lugares, mas principalmente no Lago Azul. Em campo de areia, mas iluminado com potentes refletores. Havia outra, aos domingos. 
Conheci e lembro de tantos amigos dele. Difícil citar todos. Cresci e passei a jogar. Lembro o dia em que parou. Já era escalado na ponta direita. Veio uma bola rápida e não conseguiu dominar. Pediu para sair. O corpo não obedecia ao pensamento. 
Desde cedo, nos estádios de futebol, sentado ao seu lado, narrando. “O tempo passa, a barba cresce”, a propaganda da Gilette Azul. Depois, comentando. Às vezes, na volta, no carro, argumentava sobre alguma opinião dele, ao microfone. Lá, não tinha nada de opinião não se discute. Nós discutíamos. Eu aprendia. Era bom. 
E a música? Sabiam que ele teve um conjunto chamado Bando da Estrela? E que minha mãe, Celeste, era a cantora? Fazia a linha do que chamamos de “Regional”, violões, pandeiro e vocais, como o Bando da Lua, de Carmem Miranda. Meu irmão tem ainda um acetato com duas músicas, de Edyr, tocadas pelo Bando. Eu as aproveitei no espetáculo dos 80 anos da PRC5. 
Depois de casado, havia muita responsabilidade. Muitos empregos. Onde estava a música? Os filhos foram crescendo. O violão, de vez em quando pegava e mostrava Noel Rosa e outros grandes. Quando Francisco Alves, o “Rei da Voz”, o “Chico Viola”, veio a Belém, escondeu-se no Teatro da Paz para ouvi-lo ensaiar “Boa noite, meu grande amor!”. Aos poucos foi chegando à Bossa Nova e sobretudo a Paulinho da Viola. Mas era algo esparso, na família. Continuamos crescendo e agora ela rejuvenescia, fazendo companhia, conhecendo os novos grandes artistas. 
Tive a sorte de fazê-lo voltar a compor. Dei uma letra a ele. Escrevi pensando em sua estética. Foi o estopim para uma carreira de compositor maravilhosa, que tem seu maior sucesso em “Bom dia Belém”, dele com minha tia Adalcinda. Juntos, fomos campeões de samba-enredo pelo Quem São Eles. Teve parceiros diversos, como Ruy Barata, Antônio Carlos Maranhão, Ronaldo Franco e minha mãe em várias músicas. Lançou um solo e mais tarde tocou com amigos no Clube do Camelo. Espero, ano que vem, mostrar um CD de inéditas que deixou. Pois é, pensando nele, meu maior ídolo, meu melhor amigo, professor. Meu pai, hoje, faria 97 anos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SAUDADE MARAVILHOSA

Muito poucos o conhecem, mas Mário Adnet é um dos melhores músicos brasileiros há tempos. Tem mais discos no Japão do que no Brasil. Cultor da bossa nova, melodicista de primeira, músico, maestro, amante de Tom Jobim, dedicando um CD sinfônico à sua obra e também passando em revista o grande Moacir Santos, Adnet apresenta seu novo trabalho. 
Logo aos primeiros acordes de “Ancestral”, dedicada a Armando Marçal, nos faz embarcar na maravilhosa música popular brasileira. Melodia e execução. Mário ao violão, Marcos Nimrichter ao piano, Jorge Helder no baixo, Rafael Barata na bateria, Marçal na percussão, mais os metais de Eduardo Neves, Aquiles Moraes e Everson Moraes. Que beleza! Onde foi que nos perdemos da MPB? Ou, hoje, seria MBC, música brasileira culta? 
Há bossa nova, samba jazz, baque virado, Ricardo Silveira na faixa título, valsa, uma versão espetacular de “Viver de Amor”, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos, e uma versão sambajazz para “Caravan”, o standard de Duke Ellington e Juan Tizol, dedicada a Moacir Santos. Que beleza! 
O lançamento é do Sesc São Paulo. Quem mais se atreveria a lançar um CD com tanta qualidade? Inspirado, corri para minha coleção. O primeiro CD que peguei foi de Caetano Veloso. Ouvi “Paisagem Útil”, a primeira canção tropicalista que ele compôs. O primeiro a ouvi-la foi Paulinho da Viola. “Paisagem Útil”, é a primeira letra a partir de uma paisagem, a do Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. É uma das minhas favoritas. “Uma lua oval da Esso, comove e ilumina os beijos dos pobres, tristes, felizes, corações amantes do nosso Brasil”. Uma marcha rancho. 
Caetano e Gil tinham um passado de MPB e não de rock, que desenvolveram depois. “Alegria, Alegria”, com guitarras, é uma valsa portuguesa. A orquestração seria de Rogério Duprat ou Briamonte? Há outra de Caetano, que lembro agora, “Trem das Cores” já anos depois, “teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí”. 
Caetano está na Europa, fazendo shows com Teresa Cristina. Paula Lavigne, a mãinha, nos bastidores, faz “lives” através do Instagram de alguns números. Deve ser uma grande felicidade um artista desfilar pelas grandes cidades com ingressos totalmente vendidos. 
Ele cantou “Reconvexo” em Londres. Depois estava em Lisboa. Adiante, vemos a turma conversando, cinco minutos antes de subir ao palco em Madri. Como era boa a nossa música. 
E Belchior? Eu o conheci. Veio a Belém. Conversamos. Papo viajandão como quem recita um monólogo de improviso, conversando consigo próprio. Eu começara a trabalhar em rádio. Ele, mais Ednardo, Fagner, mais Sérgio Sampaio e Luiz Melodia, todos estreando. Como eram bons! Tinham tudo a ver com nossa idade. 
Acho que Belchior, antes de estourar, já trouxe com ele suas melhores músicas. Depois não acho que tenha composto algo de mesmo nível. Quanto ao sumiço, como explicar as pessoas? Como explicar? Vejo moças lindas, formadas, inteligentes (ao que parece), chics e vem a música de sua preferência: sertanojo. Pronto, aí não dá. 
Falta de Educação e Cultura, de ética, da compreensão, do pensamento rico em argumentos, da identificação da beleza a partir da língua. Ou o funk, cujas melodias são inferiores a “Atirei o pau no gato” e as letras, sexo lixo. Passo de carro e vejo casas de shows lotadas de cowboys do asfalto. Ah, como era boa a nossa música. Saudade Maravilhosa

sexta-feira, 5 de maio de 2017

GUERRA E BONDADE

São duas coisas completamente conflitantes? Depende. Assisti, a princípio querendo não gostar, o filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson. Levou para as telas uma história real, do primeiro soldado considerado “O.C.”, que é algo como Objection of Conscience”, permitido a partir de gestões de Igrejas de Adventistas do Sétimo Dia. O pai de Desmond Doss e o irmão, lutou na Primeira Guerra e voltou para casa cheio de traumas. Espancava diariamente os filhos e a esposa. Em uma dessas vezes, Doss, revoltado, imobilizou o pai, tirou-lhe o revolver das mãos e apontou para sua cabeça. Quase atirava. Quando tudo passou, jurou que nunca teria uma arma. Veio a Segunda Guerra, o irmão alistou-se e foi lutar. Pouco tempo depois, Doss também alistou-se. No campo de treinamento, ao recusar pegar e manusear um fuzil, deu início a um tormento. Seu sargento e os companheiros o humilhavam e até espancavam. Ele envergonhava a todos. Passou pelo psicólogo, general e acabou em um tribunal. O pai irrompeu na sala com um documento que mostrava que a constituição lhe dava o direito de ir para a guerra como médico, sem portar arma. Mesmo com todas as ameaças e pressões, Doss não voltou atrás. Seu pelotão foi travar a grande batalha da guerra no Pacífico, contra os japoneses, pela ilha de Okinawa. Havia uma serra a conquistar. Dois batalhões já haviam sido dizimados. Uma face em abismo vertical era o início. Lá no alto, os japoneses. Não há espaço aqui para discutir o lado certo. É apenas um filme e com o cansaço dos filmes western, americanos transformaram os índios em alemães e japoneses. Estes, correm para a morte, com seus gritos assustadores. Morrem aos magotes e ainda surgem muitos outros. Doss corre de um para outro ferido, dando atendimento e mandando para a retaguarda. Parecem ter uma vitória. O inimigo fugiu. Passam a noite nos buracos feitos por bombas. Não sabiam que os japoneses tinham um túnel por onde sumiam e reapareciam com mais força. Isso acontece. Os americanos batem retirada. Sobraram 32 vivos, que desceram pelas cordas em pânico. Doss, ficou. Veio a noite. Às escondidas, começou a buscar cada ferido e levar para baixo. Descia-os amarrados em cordas. Alguns inimigos surgem, dando golpes de misericórdia em feridos. Ele se esconde. A cada um que descia, pedia a Deus mais força para trazer outro. Foram 75 companheiros, a noite inteira. Enfim, conseguiu descer. Chegando, os companheiros foram felicita-lo mas reagiu com golpes. Estado de choque. Belo ator. Me fez chorar, confesso. O filme ganhou Oscar de melhor mixagem de som. Gibson dirigiu ótimas cenas de batalha. Dá pra sentir o medo a empurrar a coragem de todos. E à noite, a tensão para que Doss trouxesse os feridos. Um por um. Talvez tenha sido essa aflição e o olhar do ator que me tenha emocionado. Mas logo compreendi que foi o impacto da bondade. Essa, tão violenta em um ambiente tão agressivo, me atingiu frontalmente. Doss salvou até o sargento que tanto o humilhava. Morreu no início dos anos 2000. Ao final, vemos fotos e  depoimentos. Em um mundo que estamos vivendo, com tanta maldade, me impressiona a força da bondade. Tento compreender essas pessoas que largam tudo e vão distribui-la no mundo. Esses médicos sem fronteira, por exemplo. Os que cuidam daqueles que perderam tudo. Eu, humano cheio de defeitos, procuro ser bom. Quero seguir meu pai que me disse que tudo o que queria era que eu fosse um homem bom. Distribuir bondade nesse mundo selvagem em que estamos. O filme me emocionou. A bondade, sempre.